sábado, 30 de junho de 2007

On the edge



Cego,

entalei os dedos
na porta da felicidade.



sexta-feira, 29 de junho de 2007

As Palavras não nos iluminam



Nesta vida – é um facto – estamos sempre
a desaprender coisas novas. O mundo
vai guardando a luz nas suas bainhas negras
e temos a melindrosa companhia dos fantasmas
que nos procuraram: eles governam rudemente
os nossos pequenos reinos e há um ceptro novo
para cada coroação. De repente, com a volta
das estações, damos por nós muito mais velhos
nas fotografias. As razões que nos assistiam
empalidecem em paisagens cruelmente coagidas
pela luz. Fomos expulsos dos grandes palácios
da alegria? Onde estão os mapas que nos guiavam
lá dentro, exactos como o instinto? Não sabemos
responder: o caminho turva-se: são as incertezas
da maturidade. As palavras não nos iluminam
e o amor está condenado aos defeitos naturais
do coração, que ainda assim há-de voltar a arder

sem defesa nem socorro uma vez mais.



Rui Pires Cabral



quarta-feira, 27 de junho de 2007

What if...



E se fosse só amor, o amor?





terça-feira, 26 de junho de 2007

Poalha de água


Aprendeu a separar o nocturno zinabre
do transumante desejo e poro a poro o dia
larga sobre a pele os perfumes da terra
e o tempo cobre-se de cardos em cinza

tem o olhar escondido na inquietação da luz
guarda no peito o sossego dormente das pedras
um ombro de sombra dá-lhe fresco à boca

mas se ao morrer o abrissem ao meio
nada encontrariam
nem vísceras nem ossos nem sangue
apenas poalha de água
e a dor da infindável travessia



Al Berto

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Disappear Here



So I enjoyed and I devoured
flesh and wine and luxury.
But in my heart,
I am lukewarm;
nothing ever really touches me.



Tudo foi dito cem vezes



Tudo foi dito cem vezes
E muito melhor que por mim
Portanto quando escrevo versos
É porque isso me diverte
É porque isso me diverte
É porque isso me diverte e cago-vos na tromba


Boris Vian

Slipping lips




A minha boca é um sismo-que-te-fende-o-corpo

que o invoca.


A minha boca é uma emboscada

no silêncio

da tua.

domingo, 24 de junho de 2007

Song for the hopeless



I'm waiting for you to bump into me.
Accidentally.




Todas as manhãs são o quadro onde te invento




Amo-te por cada pestana, cabelo, debato-me contigo em corredores
branquíssimos de onde nascem fontes de luz,
luto contigo em cada nome, arranco-te com delicadeza de cicatriz,
vou colocando em teus cabelos cinzas de relâmpago
e espigas que dormiam à chuva.
Não quero que tenhas uma forma, antes que sejas
precisamente o que vem por detrás da tua mão,
porque a água, considera a água, e os leões
quando se dissolvem no açúcar da fábula,
e os gestos, essa arquitectura do nada,
acendendo suas luzes a metade do seu encontro.
Todas as manhãs são o quadro onde te invento, desenho,
e te apago, assim não és, nem
com esse cabelo caído, esse sorriso.
Procuro-te na tua totalidade, no copo onde o vinho
é também lua e espelho,
procuro esse limite que faz vibrar um homem
numa galeria de museu.
E quero-te, e faz tempo e frio.



Julio Cortazar


Elogio dos sonhos






Nos sonhos
pinto como Vermeer Van Delft.

Falo grego com fluência
e não apenas com os vivos.

Conduzo um automóvel
que me é obediente.

Sou hábil,
escrevo grandes poemas.

Escuto vozes
tão bem como os antos mais austeros.

Ficaríeis admirados
da perfeição com que toco piano.

Consigo voar como devia ser,
isto é, eu de mim própria.

Ao cair de um telhado
sei como descer lentamente na verdura.

Não me lamento:
consegui descobrir a Atlântida.

Fico contente porque, antes de morrer,
consigo acordar sempre.

A guerra a rebentar
e eu a virar-me para o melhor lado.

Sou, sem ter porém
que o ser, filho da época.

aqui há alguns anos
vi dois sóis.

e, antes de ontem, um pinguim,
ali, muito nítido, ao pé de mim.








Wislawa Szymborska

sábado, 23 de junho de 2007

Diz-me




Que cor têm os meus olhos
quando me doem de não te ver?




Bicicleta




Lá vai a bicicleta do poeta em direcção
ao símbolo, por um dia de verão
exemplar. De pulmões às costas e bico
no ar, o poeta pernalta dá à pata
nos pedais. Uma grande memória, os sinais
dos dias sobrenaturais e a história
secreta da bicicleta. O símbolo é simples.
Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais -
lá vai o poeta em direcção aos seus
sinais. Dá à pata
como os outros animais.

O sol é branco, as flores legítimas, o amor
confuso. A vida é para sempre tenebrosa.
Entre as rimas e o suor, aparece e desaparece
uma rosa. No dia de verão,violenta, a fantasia esquece. Entre
o nascimento e a morte, o movimento da rosa floresce
sabiamente. E a bicicleta ultrapassa
o milagre. O poeta aperta o volante e derrapa
no instante da graça.

De pulmões às costas, a vida é para sempre
tenebrosa. A pata do poeta
mal ousa pedalar. No meio do ar
distrai-se a flor perdida. A vida é curta.
Puta de vida subdesenvolvida.

O bico do poeta corre os pontos cardeais.
O sol é branco, o campo plano, a morte
certa. Não há sombra de sinais.
E o poeta dá à pata como os outros animais.

Se a noite cai agora sobre a rosa passada,
e o dia de verão se recolhe
ao seu nada, e a única direcção é a própria noite
achada? De pulmões às costas, a vida
é tenebrosa. Morte é transfiguração,
pela imagem de uma rosa. E o poeta pernalta
de rosa interior dá à pata nos pedais
da confusão do amor.
Pela noite secreta dos caminhos iguais,
O poeta dá à pata como os outros animais.

Se o sul é para trás e o norte é para o lado,
é para sempre a morte.
Agarrado ao volante e pulmões às costas
como um pneu furado,
o poeta pedala o coração transfigurado.
Na memória mais antiga a direcção da morte
é a mesma do amor. E o poeta,
afinal mais mortal do que os outros animais,
dá à pata nos pedais para um verão interior.



Herberto Helder

terça-feira, 19 de junho de 2007

Quase nada




As mãos pressentem a leveza rubra do lume
repetem gestos semelhantes a corolas de flores
voos de pássaro ferido no marulho da alba
ou ficam assim azuis
queimadas pela secular idade desta luz
encalhada como um barco nos confins do olhar

ergues de novo as cansadas e sábias mãos
tocas o vazio de muitos dias sem desejo e
o amargor húmido das noites e tanta ignorância
tanto ouro sonhado sobre a pele tanta treva
quase nada



Al Berto

Thin red line...


É demasiado ténue a linha que separa a loucura do vazio, e o extravasar da felicidade incomensurável.



sexta-feira, 15 de junho de 2007

Tocar




As minhas mãos
abrem as cortinas do teu ser
vestem-te com outra nudez
descobrem os corpos do teu corpo
As minhas mãos
inventam outro corpo
para o teu corpo


Octávio Paz

I'm drowning...





E de repente...




Cada um está só sobre o coração da terra
Trespassado por um raio de sol:
E de repende é noite.


Salvatore Quasimodo

A dor da palavra voltou, e eu sem saber o que fazer dela... sangrei.


Se eu quisesse enlouquecia...



Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis.
Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio...
Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso.
Porque, sabe? acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio,
acende-se um cigarro...
Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente
a massa das sombras, a camisa caindo sobre a cadeira
ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?
... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo...
Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo.
Não calcula o que seja?
Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão
e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação.
Faço-me entender? Não?
Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida.


Herberto Helder
"Passos em Volta"